quinta-feira, junho 18, 2009

Um bom texto

Inventar sempre foi muito difícil pra mim. Me falta criatividade, e me falta muita coragem. Se crio uma situação fictícia interessante, é muito difícil pra mim resolvê-la. Não tenho criatividade.

Por exemplo: se o sangue de uma garota, esparramado pelo chão, aos poucos começa a flutuar, formando corações vermelhos, o que fazer? Como sair disso? E como chegar lá, em primeiro lugar? Sei que de alguma forma isso partiu de Alice e sua rival, a Rainha de Copas. Sei que os corações vermelhos são isso, e que a violência da cena é inspirada por um jogo de computador sobre essa mesma história de Alice. Mas o que mais? Não tenho criatividade para resolver a cena, não faço idéia de onde ir depois disso. A cena me inspira, ao mesmo tempo em que não me deixa saídas. Como não sentir vontade de escrever, de inventar, ao visualizar aquele banheiro branco, apertado, o armarinho aberto atrás do espelho acima da pia, o sangue lentamente se juntando e subindo? É uma cena de lindas promessas, mas eu não sou capaz de cumprir nenhuma.

Uma vez, aos quinze anos, escrevi essa história. Foi pra aula de inglês. Alice era, como dizia-se na época, “clubber.” Bonita, jovem, moderna, drogada. Terminou pela enésima vez com seu namorado também clubber (e portanto, bonito, jovem, moderno e drogado). Ficou mal, cheirou cocaína, teve umas alucinações (a linda cena no banheiro não passou de um sonho induzido por narcóticos...). No seu delírio, viu dois caminhos distintos que sua vida seguia. Um bom e o outro ruim. Quando ela volta a si, resolve parar de usar drogas. É capaz que as alucinações mostrando dois futuros de Alice tenham vindo de Um Conto de Natal, de Charles Dickens. Eu havia lido o livro recentemente. Eu, que nunca havia usado drogas e muito menos namorado. E é isso. Toda a história acontece em umas duas páginas. Todo o desenvolvimento não é apenas pobre de idéias, mas é também medroso. E aqui passamos à falta de coragem.

Se não consigo criar, por que não falar sobre a verdade? Já vi e li tanta coisa legal baseada em fatos reais, ou mesmo totalmente jornalística ou documental! O universo da não-ficção é imenso. Posso escrever desde uma receita de bolo até uma biografia de um artista que eu goste, passando ainda por resenhas de filmes, relatos de férias, fofocas do meu círculo social, e a lista segue...

Na não-ficção, além de me faltar criatividade, me falta coragem. E muita. Escolhi um tema delicado: meus encontros amorosos. Eu mesmo me escondi atrás de um personagem fictício, mas não quis mudar o nome dos personagens porque já havia me acostumado muito com eles e seus apelidos. A idéia parecia ótima: cada encontro ou homem que mexeu comigo, ganharia um post. A maioria destes, seriam homens com quem eu transei pelo menos uma vez. Cada post seria sobre um encontro, provavelmente a primeira vez que transei com cada cara. Difícil...! Quis suprimir alguns “defeitos” do encontro, coisas que eu preferia que tivessem sido diferentes. Criei até defeitos novos. Mas o texto ia rápido, vazio, cheio de nada... A introdução e os títulos (os apelidos de cada cara) eram ótimos: “Greg, o modelo;” “Lufe, o cineasta;” “Krishna, o esotérico” e outros tantos que prometiam histórias ótimas...! Mas não consigo conduzir as ações naturalmente. Todas terminavam com frases do tipo “foi bom” ou “penso nele às vezes” ou outra coisa igualmente opaca. Meus personagens parecem que estão numa versão censurada de Malhação...

Enfim, quero aprender a escrever e a criar. Eu devo ter alguma criatividade. Afinal, sempre tive uma certa inclinação artística, e sou fotógrafo profissional. No momento, vou tentar aprender sozinho. Lendo um pouquinho de Érico Veríssimo e assistindo O Iluminado de Stanley Kubrick, aprendi (teoricamente) que escrever pode ser duríssimo, e precisa ser um exercício diário. Fazer disso o meu trabalho. Não lembro onde vi isso (não foi Veríssimo nem Kubrick...), mas dizia que trabalhando todos os dias na escrita seria o único jeito de produzir algo de qualidade, ainda que esse algo surja em apenas 10% de todo o tempo trabalhado... O exercício constante da escrita tornaria possível a criação de um bom texto (seja lá o que isso for...). Não me engano, nunca tive o dom das palavras. Sempre brinquei e trabalhei com imagens. Não posso esperar aprender sozinho a ser um ótimo escritor. Mas eu definitivamente preciso aprender a criar. Acho que vai ser um parto com fórceps. Mas só se der certo.

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